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Seiva

por Gizelda Capilé

Ipês, jacarandás, araucárias, mangueiras, são as árvores frondosas que me vêm à mente quando me deparo com a palavra Seiva, porque faço correlação dela com vigor, força, energia.

O que dizer das árvores retorcidas e minguadas do cerrado que em tempo de seca parece que já morreram, mas quando uma chuvinha vem, nos emocionam às lagrimas, com suas cascatas de flores das mais diversas cores, tamanho e forma?

Onde nelas a seiva que nutre e vivifica a cada primavera? Onde nelas o vigor e a força de renascer a cada temporada?

Considerando estas árvores sobreviventes do cerrado, pensei nas fases de desenvolvimento de cada ser humano.

Nós, como cada árvore deste planeta, temos uma aparência, um lado que todo vê, critica ou aplaude, que podemos dizer ser a nossa “casca” ou a “máscara”, e um outro lado encoberto muitas vezes nem conhecemos e que podemos chamar de “seiva”, de essência, ou mesmo de alma.

Talvez possamos dizer, “a alma das plantas” e a “seiva do ser humano”, tanto faz. O que importa mesmo é que tudo o que tem vida, tem seiva, tem essência, tem alma.

Onde a nossa seiva, nossa essência, a nossa alma? Existe uma idade certa para adquiri-la, desenvolvê-la ou mesmo conhecê-la?

Carl Gustav Jung, psicólogo suíço, afirma, em seus estudos sobre o psiquismo humano, que assim como o código genético orgânico determina a formação do nosso corpo, uma estrutura emocional similar, denominada arquétipo, possibilita modos de ação, reação e atitudes, que nos colocam na condição de seres humanos.

Segundo ele, existe em cada um de nós uma psique objetiva que nos é dada, independente de nossa vida pessoal, e sobre a qual a própria humanidade se enraíza.

Assim como a natureza tem seu ciclo e uma semente de manga, por exemplo, já traz em seu núcleo a possibilidade de ser uma mangueira e dar frutos, o ser humano traz, intrinsecamente, a possibilidade de crescer e progredir através de estágios de desenvolvimento. Tudo a seu tempo. Anne Brenan, em seu livro “Arquétipos Junguianos”, nos diz que quando todo crescimento da infância é alcançado, quando a infância alcança sua realização, é preciso deixá-la morrer, para continuar a crescer e viver… Durante toda a infância e juventude, o ambiente é o principal fator de desenvolvimento da personalidade. Porém, quando a juventude começa a dar espaço para a maturidade, por volta dos 35-45 anos de idade, o que nos nutria já não nos nutre mais; o que nos fazia felizes e nos incentivava já não nos inventiva mais. Sem sabermos por que, algo nos incomoda e o sentida da vida, a sua seiva diminui sem nenhuma razão aparente. Temos a sensação de que tudo o que foi vivido por nós não tem valor e que precisamos de uma vida nova.

Nesta etapa da vida, na entrada da maturidade, devido a todos esses sentimentos desencontrados, muitas pessoas se perdem de si mesmos e buscam fora o que poderiam encontrar em sua própria essência. Nesta busca exterior, quantas pessoas jogam para o alto toda uma história de vida, acreditando que no recomeço podem se encontrar.

O recomeço é necessário e importante porque o crescimento e o amadurecimento não cessam e o que se modifica é a direção da energia vital.

A vida exterior e as conquistas foram e continuam sendo importantes, porém, aliadas a elas, a vida interior e as experiências psíquicas se tornam fundamentais. Essa é a fase da busca da Sabedoria, pois, ela nos coloca em contato com o nosso significado supremo e único e nos fala da nossa própria história de vida. Este é um tempo de paradoxos onde feiúra e beleza, alegria e tristeza, inteligência e ignorância, bem e mal, convivem conosco e nos causam estranheza. Voltarei a sorrir? Voltarei a viver? Muitos se perguntam. Sim. Como as árvores do cerrado, secas e desvitalizadas, que voltam a florir na primavera, todo ser humano, na maturidade, pode conectar-se ao manancial de energia que carrega como fonte psíquica arquetípica e, viver.

Como nos diz o Poeta sem seus versos…

Desejo que voe, sendo jovem,

Não amadureça depressa demais.

E que sendo madura,

Não insista em rejuvenescer.

E que sendo velho,

Não se dedique ao desespero.

Por que cada idade

Tem seu prazer e a sua dor.

E é preciso deixar

Que escorram por dentro de nós.

… Como a Seiva.